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Economia

Com dívida crescente no Brasil, cartões de créditos podem se tornar inacessíveis para a classe média

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Com dívida crescente no Brasil, cartões de créditos podem se tornar inacessíveis para a classe média

Um retrato preocupante do endividamento brasileiro acende um alerta: o cartão de crédito, ferramenta financeira mais popular do país, pode estar caminhando para se tornar um privilégio inacessível para boa parte da classe média.

Os dados são do próprio Banco Central do Brasil e não deixam margem para interpretações otimistas.

Segundo o BC, os gastos com cartões de crédito já consomem 54% do orçamento familiar dos brasileiros — uma elevação expressiva em relação aos 38,5% registrados em 2020. Em apenas seis anos, o peso do cartão no bolso das famílias cresceu quase 16 pontos percentuais.

Outro número que chama a atenção vem de pesquisa do Instituto Datafolha: entre os brasileiros inadimplentes, 29% acumularam dívidas por causa do cartão de crédito — tornando-o o principal vilão do endividamento no país.

O cenário combina juros estratosféricos, facilidade excessiva na concessão de crédito e uma série de choques econômicos globais que corroeram o poder de compra das famílias. O resultado é uma bomba-relógio financeira que já está em contagem regressiva.

Por que estamos gastando mais com o cartão de crédito?

A resposta não é simples, e vai muito além do consumismo. Em entrevista ao Bastidores CNN, o analista de Economia Fernando Nakagawa identificou dois fatores centrais que alimentam esse ciclo de endividamento.

O primeiro é estrutural: os juros do crédito rotativo — aquele que incide quando o consumidor paga apenas o mínimo da fatura — ultrapassam 400% ao ano, a maior taxa de toda a estrutura do sistema financeiro nacional. Isso transforma uma dívida pequena em uma bola de neve em questão de meses.

O segundo fator é comportamental: a proliferação de fintechs e bancos digitais democratizou o acesso ao crédito, mas também criou um ambiente de facilidade que pode ser perigoso. Hoje, abrir uma conta em um banco digital já vem acompanhado de um cartão pré-aprovado, sem análise criteriosa de perfil financeiro.

Com tantas opções disponíveis, muitos consumidores acumulam múltiplos cartões simultaneamente — e, com eles, múltiplas dívidas. O problema não está no cartão em si, mas na ausência de educação financeira para gerenciar esse crédito com responsabilidade.

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O próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, admitiu ao G1 que uma parcela significativa da população brasileira passou a utilizar linhas de crédito emergenciais de forma recorrente e estrutural — como se fossem uma extensão da renda mensal, e não um recurso de emergência.

Nas palavras de Galípolo, a intenção do BC era “produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito” — uma declaração que reconhece, implicitamente, que o modelo atual não é sustentável.

Quatro choques econômicos em uma década

O presidente do BC ainda contextualizou o cenário macroeconômico que agravou a situação das famílias brasileiras. Segundo Galípolo, o Brasil enfrentou quatro grandes choques econômicos ao longo desta década, todos com impacto direto na inflação e no poder de compra:

  1. A pandemia de Covid-19 e seus efeitos sobre renda e emprego
  2. A guerra da Ucrânia, que pressionou os preços de energia e alimentos globalmente
  3. O tarifaço de Trump, que afetou cadeias produtivas e o câmbio
  4. O conflito no Oriente Médio, o mais recente vetor de instabilidade econômica mundial

Cada um desses eventos corroeu o orçamento das famílias de classe média, empurrando mais pessoas para o crédito rotativo como válvula de escape. O problema é que a saída pelo rotativo frequentemente aprofunda a crise, criando um ciclo difícil de romper.

O que fazer para não ser pego nessa armadilha

Especialistas em finanças pessoais recomendam algumas práticas essenciais para quem quer manter o cartão de crédito como aliado — e não como inimigo:

  • Nunca pagar apenas o mínimo da fatura, pois os juros do rotativo (400%+ ao ano) transformam qualquer saldo em uma dívida impagável rapidamente
  • Centralizar gastos em um único cartão para facilitar o controle
  • Usar o cartão como meio de pagamento, não como extensão de renda
  • Acompanhar o próprio CPF e score de crédito pelo portal Serasa ou SPC Brasil

📱 Para consultar dívidas e negociar diretamente com credores, acesse também a plataforma gratuita do governo: consumidor.gov.br

O endividamento crescente com cartões de crédito no Brasil não é apenas um dado estatístico — é um reflexo de uma crise silenciosa que avança sobre as finanças de milhões de famílias. Entender as causas é o primeiro passo para não se tornar parte dessa estatística.


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