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Saúde

Pesquisa encontra agrotóxicos em biscoito maisena, macarrão instantâneo, empanado e hambúrguer à base de plantas

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Um levantamento que deveria estar em toda mesa do país acaba de ser divulgado: metade dos alimentos ultraprocessados analisados em uma nova pesquisa continha resíduos de agrotóxicos — incluindo produtos amplamente consumidos por crianças e adultos no dia a dia.

Os dados integram o terceiro volume do estudo “Tem Veneno Nesse Pacote”, conduzido pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor). A pesquisa completa, com os volumes anteriores publicados em **2021 e 2022, pode ser acessada gratuitamente em: 👉 idec.org.br/veneno-no-pacote

Nesta edição, foram submetidos a testes 24 alimentos ultraprocessados, distribuídos em oito categorias: macarrão instantâneo, biscoito maisena, presunto cozido, bolo pronto sabor chocolate, sobremesa petit suisse sabor morango, bebida láctea sabor chocolate, hambúrguer à base de plantas e empanado à base de plantas com sabor de frango.

Em cada categoria, os três produtos mais vendidos no mercado nacional foram selecionados para análise. Os testes foram executados por um laboratório certificado pela CGCRE (Coordenação Geral de Acreditação) do Inmetro, credenciado junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e referenciado pela Anvisa em análises de resíduos de agrotóxicos.

A metodologia adotada é uma das mais rigorosas disponíveis: capaz de detectar traços de até 563 tipos diferentes de agrotóxicos.

Laís Amaral, coordenadora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, explicou a razão de incluir produtos à base de plantas nesta edição. Segundo ela, a indústria alimentícia vem se apropriando de um nicho que se apresenta ao consumidor como alternativa mais saudável e sustentável ao consumo de carne, mas que, na prática, reproduz a mesma lógica dos ultraprocessados tradicionais, inclusive utilizando matérias-primas cultivadas com defensivos agrícolas.

“Precisamos alertar para o perigo duplo do consumo de ultraprocessados. Eles são produtos com excesso de nutrientes críticos, relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, doenças do coração e hipertensão, além da presença de aditivos alimentares. E também temos consistentemente encontrado traços de contaminação com agrotóxicos nesses produtos, ou seja, são venenos tão potentes que continuam ali mesmo depois dos processos de produção nas indústrias”, afirmou Amaral.

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Resultados

Dos 24 produtos analisados, 12 apresentaram contaminação por resíduos de agrotóxicos. Os que registraram o maior número de substâncias diferentes foram:

Com 4 tipos de agrotóxicos detectados:

  • Biscoito maisena Marilan
  • Biscoito maisena Triunfo

Com 3 tipos de agrotóxicos detectados:

  • Hambúrguer à base de plantas Sadia
  • Empanado à base de plantas sabor frango Seara
  • Macarrão instantâneo Nissin
  • Macarrão instantâneo Renata
  • Bolo pronto sabor chocolate Ana Maria

Com 2 tipos de agrotóxicos detectados:

  • Empanado à base de plantas sabor frango Sadia

Com 1 tipo de agrotóxico detectado:

  • Hambúrguer à base de plantas Fazenda Futuro
  • Empanado à base de plantas sabor frango Fazenda Futuro
  • Presunto cozido Aurora
  • Bolo pronto sabor chocolate Panco
  • Bebida láctea sabor chocolate Pirakids

O agrotóxico que apareceu com maior frequência foi o glifosato, detectado em 7 das 24 amostras. Classificado como “provavelmente carcinogênico” — ou seja, capaz de causar câncer — pela IARC (Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS), o glifosato é atualmente o herbicida mais comercializado no mundo.

Vale destacar que o glifosato é amplamente utilizado em lavouras de soja, milho e trigo — culturas que compõem a base de ingredientes da maioria dos ultraprocessados analisados. Sua persistência nos alimentos industrializados, mesmo após processamento térmico e industrial, é um dos pontos mais preocupantes sinalizados pelos pesquisadores.

A farinha de trigo, presente tanto no biscoito maisena quanto no macarrão instantâneo e na crosta dos empanados, voltou a aparecer como ingrediente de alta incidência de contaminação — resultado que já havia sido sinalizado no segundo volume do estudo.

A única categoria que ficou completamente livre de contaminação foi a sobremesa petit suisse sabor morango: nenhuma das amostras analisadas indicou presença de agrotóxicos.

Amaral faz questão de pontuar, no entanto, que ausência de resíduos nas análises não é sinônimo de isenção total: “Os testes que não indicaram resíduos de agrotóxicos não significam, comprovadamente, que esses ultraprocessados não utilizam matérias-primas com uso de venenos agrícolas. Mostram apenas que as amostras analisadas não contêm resíduos de agrotóxicos.”

Leonardo Pillon, advogado do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, lembrou que a entidade critica há anos o afrouxamento progressivo da regulação sobre essas substâncias. O instituto integra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, coalizão que reúne organizações da sociedade civil em defesa de uma política mais rigorosa no setor.

Pillon fez crítica direta ao Congresso Nacional: “Cabe a crítica também aos deputados federais e senadores que, mesmo no meio de uma catástrofe climática diretamente relacionada com o ritmo de desmatamento e a manutenção de retrocessos na legislação ambiental, derrubaram vetos no Pacote do Veneno para concentrar poderes nas mãos do MAPA.”

Segundo ele, essa concentração de poder favorece o lobby ruralista e as corporações de agrotóxicos, acelerando o descontrole regulatório dessas substâncias.

O advogado alerta que os mais prejudicados serão justamente os grupos mais vulneráveis: pessoas negras, periféricas, mulheres, crianças e povos originários e tradicionais, tanto por estarem mais expostos a eventos climáticos extremos quanto por serem submetidos a cargas crescentes de agrotóxicos na alimentação.

Ao encerrar esta terceira fase do levantamento, o Idec notificou formalmente todas as empresas responsáveis pelos produtos em que foram detectados agrotóxicos. Os resultados também foram encaminhados à Anvisa para conhecimento e eventuais providências regulatórias.

Para denúncias ou consultas sobre direitos do consumidor relacionados a alimentos, o cidadão pode acionar a Anvisa pelo portal: 👉 www.gov.br/anvisa ou registrar reclamações no Consumidor.gov.br: 👉 www.consumidor.gov.br

 


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