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Economia

Simples puro ou híbrido? Como escolher em 5 passos – e voltar atrás, se necessário

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prazo simples nacional

Empresas do Simples Nacional têm até esta sexta-feira (30) para decidir como vão recolher IBS e CBS no regime regular

O relógio está correndo para quem está no Simples Nacional. O prazo para decidir como pagar o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) no primeiro semestre de 2027 termina nesta sexta-feira (30).

A escolha é entre dois caminhos. No modelo puro, os tributos continuam dentro do Documento de Arrecadação do Simples (DAS). No modelo híbrido, os demais tributos ficam no Simples, mas IBS e CBS passam a ser apurados pelas regras do regime regular.

A dúvida tem tirado o sono de muito empresário, já que a reforma tributária ainda está em fase de transição. Mas será que tudo se resume às alíquotas? Segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, não.

Aliás, a incerteza sobre os percentuais já é menor do que meses atrás. A gestora de planejamento tributário Gabrieli Caroline Freire, do escritório Salamacha Salamacha, Abagge e Calixto Advocacia, lembra que o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou nesta semana uma alíquota de referência de 11,3% para a CBS em 2027.

Pela Lei Complementar 214, a cobrança em 2027 e 2028 terá redução de 0,1 ponto percentual, o que leva a uma alíquota de 11,2%. O IBS, por sua vez, fica em 0,1% nos dois primeiros anos da transição. Para Freire, a alíquota que importa na decisão de agora já existe, ainda que seja provisória.

Só que o principal recado dos especialistas é outro: olhe menos para o percentual e mais para o lugar da sua empresa na cadeia de negócios. Quem são os clientes, quem são os fornecedores e quanto da operação gera crédito tributário?

E isso significa aderir ao Simples? Não. Essa é uma confusão comum. O prazo para entrar ou voltar ao Simples Nacional acabou em 15 de outubro. O que segue aberto até o dia 30 é só a possibilidade de empresas já enquadradas optarem por recolher IBS e CBS pelo regime regular a partir de janeiro de 2027.

Quem ainda não conseguiu fechar as contas tem uma saída. De acordo com Richard Domingos, diretor-executivo da Confirp Contabilidade, a empresa que aderir ao híbrido até o dia 30 pode desistir depois, com o pedido de cancelamento aceito entre 3 de novembro e 20 de dezembro.

A lógica é prática: quem opta agora pelo regime regular ganha algumas semanas para terminar o estudo com dados mais atualizados. Já quem fica no modelo puro e só depois conclui que o híbrido valeria mais a pena precisa esperar a próxima janela, prevista para março de 2027, com efeitos a partir de julho.

Para quem está começando a mexer com o assunto, dois conceitos ajudam. Crédito tributário é o imposto pago nas compras que pode ser abatido do imposto devido nas vendas, e quanto mais a empresa compra com crédito, menor tende a ser o valor a recolher. Já o regime regular é o modelo das empresas fora do Simples, em que cada tributo é apurado separadamente.

O que já se sabe sobre as alíquotas de 2027?

Muita gente pergunta se faz sentido decidir sem conhecer as alíquotas definitivas. Para Freire, sim, porque a transição é gradual e a CBS terá peso muito maior que o IBS nos primeiros anos.

Com o IBS em apenas 0,1% em 2027 e 2028, a CBS será o principal tributo da nova sistemática nesse período. Na prática, a melhor escolha em 2027 não será necessariamente a melhor daqui a alguns anos.

O sócio Mateus Pontalti, do escritório Feitosa Rodrigues Pontalti, resume assim: uma empresa pode concluir que o Simples puro compensa em 2027 e chegar a outra conclusão em 2029 ou 2030, quando o IBS ganhar relevância.

Passo 1: Antes de olhar a alíquota, olhe para seus clientes

O perfil de quem compra de você é o primeiro filtro. Empresas que vendem sobretudo para consumidor final costumam encontrar mais vantagem em ficar no Simples puro.

Já negócios que fornecem produtos ou serviços para outras empresas precisam avaliar com cuidado o efeito dos créditos tributários.

Segundo Freire, quem decide entre os dois modelos é o cliente e o fornecedor, não a alíquota. Ela entra na conta, mas raramente muda o rumo.

O motivo é simples: consumidores finais não aproveitam crédito tributário. Já empresas no regime regular tendem a levar em conta os créditos de IBS e CBS na hora de escolher de quem comprar.

Para Pontalti, esse pode ser um dos efeitos mais fortes da reforma sobre os pequenos negócios: a escolha do regime deixa de ser só tributária e passa a mexer diretamente na relação entre fornecedores e clientes.

Passo 2: Descubra quanto da sua operação gera créditos

Depois de olhar para os clientes, é hora de olhar para as despesas. No modelo híbrido, a empresa recolhe IBS e CBS pelo regime regular e pode aproveitar créditos sobre compras elegíveis. Quanto maior o volume de aquisições que geram crédito, mais atraente tende a ser esse caminho.

Por outro lado, quem tem como principal custo a folha de pagamento encontra menos benefício, porque, como lembra Pontalti, salários não geram crédito.

Isso ajuda a entender por que muitos especialistas veem maior inclinação ao Simples puro em atividades que dependem de mão de obra, como clínicas, academias, salões de beleza e diversos prestadores de serviços.

Já pequenas indústrias, distribuidores, transportadoras, fabricantes de insumos e fornecedores corporativos costumam ter mais potencial de aproveitar créditos, o que pode favorecer o híbrido.

Mas a estrutura de compras não deve ser vista sozinha. Domingos alerta que uma empresa pode ter potencial de crédito e, ainda assim, concluir que o híbrido não vale a pena ao pesar margens, contratos, política de preços e capacidade de repassar custos.

Ou seja, a opção que parece mais barata no papel pode render um resultado diferente quando entram no cálculo as vendas e a rentabilidade.

Passo 3: Levante os números do negócio

Os especialistas recomendam basear a decisão em dados dos últimos 12 meses. Entre as informações indispensáveis estão:

  • faturamento por tipo de cliente;
  • percentual das vendas destinado a pessoas físicas, empresas do Simples e empresas do regime regular;
  • regime tributário dos principais clientes;
  • compras feitas com fornecedores do Simples, do regime regular e pessoas físicas;
  • despesas que geram créditos tributários;
  • peso da folha de pagamento;
  • margens de lucro;
  • capacidade de repassar custos para os preços finais;
  • classificação tributária dos produtos e serviços vendidos;
  • prazos médios de pagamento e recebimento.

Para Domingos, é preciso entender como a empresa compra, como vende, quem são os clientes e quais créditos podem ser aproveitados. Não existe resposta única.

Gabriel Barros, diretor da SF Barros Contabilidade, acrescenta que também vale checar se a estrutura administrativa e tecnológica da empresa está pronta para o híbrido. Em sua avaliação, o melhor modelo é o que equilibra as variáveis tributárias, financeiras, comerciais e operacionais, sem perder rentabilidade e competitividade.

Passo 4: Faça simulações, mas não se prenda a um único cenário

O Senado ainda precisa se manifestar sobre a alíquota de referência da CBS. Mesmo assim, os especialistas defendem que já há parâmetros suficientes para simulações consistentes.

A recomendação é montar ao menos três cenários: um base, um mais conservador e um mais otimista.

Preocupar-se demais com a alíquota pode fazer o empresário ignorar variáveis mais importantes, como a qualidade do crédito.

Freire sugere usar a referência atual de 11,3% para a CBS e testar pequenas variações para cima e para baixo, o que já cobre boa parte dos cenários de 2027. Se a conclusão não mudar nesse intervalo, o fator decisivo não é a alíquota, e sim a combinação entre clientes, fornecedores e potencial de crédito.

Num tom mais conservador, Barros recomenda trabalhar com os parâmetros oficiais mais recentes e atualizar os estudos conforme surgirem novas definições.

Mas atenção: a simulação não pode parar no imposto a pagar. É preciso medir o efeito sobre fluxo de caixa, capital de giro, preços e rentabilidade, porque a dinâmica entre créditos e débitos pode mudar o momento em que o dinheiro entra e sai.

Passo 5: Converse com seus principais clientes

Uma das orientações mais repetidas pelos especialistas é ouvir os maiores compradores antes de decidir, principalmente em negócios B2B.

Se um cliente importante pretende considerar o volume de créditos na escolha de fornecedores, a informação pode mudar por completo a análise do empresário.

Segundo Freire, muitos contribuintes olham só para a própria carga tributária e esquecem de outra conta: quanto de crédito a mais o cliente passa a ter se a empresa migrar para o híbrido, e se isso muda a posição dela diante dos concorrentes.

Pontalti acredita que a possibilidade de repassar créditos mais relevantes aos clientes terá peso crescente nas relações entre empresas ao longo da reforma. Duas empresas podem vender o mesmo produto pelo mesmo preço e, ainda assim, oferecer condições econômicas diferentes em função do crédito gerado.

Antes de fechar a decisão

Quem marcar a opção pelo regime regular neste primeiro momento deve anotar no calendário a janela de cancelamento, de 3 de novembro a 20 de dezembro, para não deixar a revisão para a última hora.

Também vale conversar com o contador responsável, que consegue cruzar notas fiscais, margens e contratos, e acompanhar os comunicados da Receita Federal, do Portal do Simples Nacional e do Tribunal de Contas da União, onde saem as definições sobre as alíquotas.


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