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O GM queria que vc fosse jantar com ele’: mensagens citam encontro entre Vorcaro e Gilmar Mendes


Conversas mostram que advogado tentou intermediar encontros entre o ex-banqueiro do Banco Master e o ministro do STF, com participação do ex-senador Chiquinho Feitosa
Conversas entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o advogado Ciro Soares, indicam uma tentativa de intermediar contatos entre o ex-banqueiro e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes. As mensagens foram obtidas pelo Estadão.
As conversas também mencionam a participação do ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa (Republicanos), então cunhado de Gilmar Mendes, em encontros e tentativas de aproximação com o ministro.
Mensagens de Vorcaro indicam tentativa de contato com Gilmar Mendes
As conversas mostram que Ciro Soares apresentou Chiquinho Feitosa a Vorcaro e compartilhou o telefone do ex-senador com o ex-banqueiro em 11 de abril de 2024. Na mesma data, Vorcaro enviou uma mensagem e fez o primeiro contato direto com o então cunhado de Gilmar.
As tentativas de aproximação, porém, já apareciam nas conversas desde o início daquele ano. Em 31 de janeiro, Ciro informou ao ex-banqueiro que teria “uma reunião do nosso assunto às 11:30” em Brasília.
Vorcaro respondeu que participaria de um almoço promovido pelo grupo Esfera em homenagem ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e comentou que Gilmar Mendes também estaria no evento.
Na sequência, Ciro orientou o ex-banqueiro a procurar o ministro. “Procure ele. No meu nome e do Chiquinho Feitosa. GM já está ciente da sua ida”, escreveu o advogado.
Chiquinho Feitosa participou de reuniões com Gilmar Mendes, disse Ciro Soares a Vorcaro
Em 5 de junho de 2024, Ciro Soares afirmou a Vorcaro que havia participado de uma reunião com Chiquinho Feitosa e Gilmar Mendes. “Eu e Chiquinho tivemos ótima reunião com GM. Espetacular”, escreveu.
Uma semana depois, em 12 de junho, o advogado relatou outro encontro com os dois. “Estava no IDP com Chiquinho e GM. Preciso falar com vc em SP”, enviou às 13h15. Como não recebeu resposta imediata, Ciro insistiu: “Esquece de me ligar não. Meio urgente”. Pouco depois, os dois combinaram de se encontrar pessoalmente.
Em 17 de junho, Ciro voltou a procurar Vorcaro para saber onde ele estava, mas não obteve resposta inicialmente. Por volta das 21h, enviou novas mensagens e informou que Chiquinho Feitosa o aguardava. “Chiquinho ficou lhe esperando. Liga aqui. Importante. Ele está indo para a casa do G”, escreveu o advogado.


Vorcaro respondeu apenas às 23h, dizendo que havia terminado seus compromissos. Na sequência, Ciro explicou que a intenção era levar o ex-banqueiro para jantar na casa do ministro. “Ok. Vamos falar amanhã. O GM queria que vc fosse jantar com ele. Aí fomos só nós quatro”, escreveu.
Ciro Soares conta a Vorcaro que encontrou Gilmar Mendes em Lisboa
As conversas também fazem referência a encontros durante o Fórum Jurídico de Lisboa, evento organizado por Gilmar Mendes. Em junho de 2024, Ciro Soares participou do encontro e relatou a Vorcaro sua impressão sobre o evento e o ministro. “Dani. Ontem foi do caralho. Ontem foi muito bom. GM é foda”, escreveu o advogado às 13h50 de 29 de junho.
Mais tarde, no mesmo dia, Ciro pediu que Vorcaro lhe telefonasse e afirmou que estava naquele momento com Gilmar Mendes. Em seguida, enviou uma fotografia na qual aparece ao lado de Paulo Gonet e de Newton Ramos, desembargador do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região).
Banco Master pagou R$ 500 mil mensais a Chiquinho Feitosa para obter benefícios em ações julgadas por Gilmar Mendes
Segundo informações publicadas anteriormente pelo Estadão, Chiquinho Feitosa atuou em favor de interesses de Daniel Vorcaro em questões relacionadas a processos no STF. O Banco Master contratou o ex-senador e pagava a ele R$ 500 mil mensais para tentar obter benefícios em ações que tramitavam na Corte e que seriam julgadas por Gilmar Mendes.
O ministro, no entanto, votou contra os interesses do banco nessas ações, embora em uma delas tenha havido comemoração por Vorcaro por ter efeito só para os casos após a decisão. O próprio Gilmar confirmou ter recebido Vorcaro e advogados do Master para tratar de uma causa bilionária.
Mensagens apontam a atuação de Chiquinho Feitora em dois casos relacionados ao Banco Master
Mensagens divulgadas anteriormente pelo Estadão apontam a atuação de Chiquinho Feitosa em dois casos específicos relacionados a interesses do Banco Master e que tiveram participação de Gilmar Mendes.
Um deles envolvia precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, da Paraíba, adquiridos por fundos ligados ao Banco Master. Nesse julgamento, Gilmar Mendes e outros ministros votaram contra os interesses do banco e da empresa.
O segundo caso tratava das regras para abertura de vagas em cursos de Medicina no Brasil. Na época, o Banco Master era sócio e financiador de uma universidade que oferecia cursos de medicina por meio de um desses fundos.
Nesse processo, Gilmar Mendes foi o relator e emitiu uma sentença que foi comemorada por Vorcaro, conforme mensagens divulgadas pelo jornal Valor Econômico.
Decisão de Gilmar Mendes sobre cursos de Medicina foi comemorada por Vorcaro
No julgamento sobre a abertura de vagas em cursos de Medicina, Gilmar Mendes votou para permitir que instituições que já haviam iniciado, junto ao MEC (Ministério da Educação), a análise documental de seus cursos pudessem dar continuidade aos procedimentos.
Após o encerramento de uma das etapas do julgamento, em 24 de maio de 2024, Maurício Quadrado, empresário do mercado financeiro, escreveu a Vorcaro: “Acabou a votação das medicinas! Ganhamos”.
Em 8 de agosto daquele ano, Quadrado voltou a tratar do assunto e afirmou ter conseguido decisões liminares para liberar os exames de vestibular das universidades. “Conseguimos as liminares de todas as medicinas. Vamos soltar todos os vestibulares”, escreveu a Vorcaro.


A assessoria de Gilmar Mendes afirmou que o voto do ministro foi favorável à posição do Ministério da Educação, mas que ele considerou necessária a criação de uma regra de transição para os processos de abertura de cursos que já estavam em andamento. Foi essa regra que motivou a comemoração do grupo de Vorcaro.
A assessoria também informou que as liminares mencionadas por Maurício Quadrado foram concedidas na primeira instância e que o caso foi posteriormente contestado pelo governo federal no STF.
Ainda segundo o gabinete, o julgamento no plenário virtual estava formando uma posição favorável às universidades, mas Gilmar Mendes pediu destaque para que o processo fosse levado ao plenário físico e discutido com mais detalhes pelos ministros.
Leia a íntegra da manifestação do ministro Gilmar Mendes:
O Ministro Gilmar Mendes nega ter mantido encontros com os interlocutores mencionados para tratar de assuntos de interesse do Banco Master.
As mensagens reproduzidas foram trocadas entre terceiros. O Ministro não é interlocutor de nenhuma delas e não pode responder por afirmações alheias.
O almoço promovido pelo grupo Esfera em 31 de janeiro de 2024, em homenagem ao Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, foi evento com a presença de diversas autoridades, e não encontro reservado.
Exemplo da fragilidade dessas afirmações é o dia 17 de junho de 2024, data em que Ciro Soares mencionou ter jantado com o Ministro Gilmar Mendes. Nesse dia, a agenda do Ministro registra: às 18h, reunião de grupo de pesquisa no IDP; às 18h30, lançamento do livro “Tributação 4.0: repensar os tributos na era digital”, também no IDP; às 19h30, reunião de caráter religioso em sua residência. O Ministro não convidou Daniel Vorcaro para jantar. O jantar mencionado não ocorreu.
Nos processos sobre abertura de cursos de medicina, o Ministro Gilmar Mendes sempre votou no sentido defendido pelo governo federal – o que o jornalista pode confirmar com a Advocacia-Geral da União e com o Ministério da Educação –, como mostram os casos a seguir:
– ADC 81 e ADI 7.187 (voto proferido na sessão virtual iniciada em 25.8.2023; julgamento concluído em 4.6.2024): Ministro Gilmar Mendes votou a favor da Advocacia-Geral da União, para manter a exigência de chamamento público pelo MEC para abrir cursos de medicina. Perderam as faculdades que pretendiam abrir cursos sem essa seleção, valendo-se de liminares obtidas junto a juízes de primeira instância ou Tribunais Regionais Federais. A regra de transição para os processos já em andamento repete critério fixado em decisão de 7.8.2023, anterior a todas as mensagens citadas.
– Reclamação 66.436 (sessão virtual de 4.10.2024): votou a favor do governo federal (AGU e MEC), contra faculdade de Sorocaba/SP que buscava abrir curso de medicina sem autorização do MEC.
– Reclamação 81.726 (sessão virtual de 7.8.2026): votou a favor do governo federal (AGU e MEC), contra faculdade de Vilhena/RO que buscava abrir curso de medicina sem autorização do MEC. Ministro Gilmar Mendes, porém, ficou vencido: a maioria da Segunda Turma (Ministros André Mendonça, Nunes Marques e Fux) decidiu a favor da faculdade.
– Reclamação 74.992 (sessão virtual iniciada em 3.10.2025): a favor do governo federal (AGU e MEC), pediu que o caso fosse retirado do julgamento virtual e levado a julgamento presencial, para impedir resultado favorável à AELBRA/Ulbra (já haviam votado em favor das faculdades os Ministros André Mendonça, Dias Toffoli e Nunes Marques). A instituição havia obtido na Justiça Federal de primeira instância autorização para realizar vestibulares sem aval do MEC.
A mensagem de 8.8.2024, que comemora “as liminares de todas as medicinas” e a liberação dos vestibulares, foi enviada no dia seguinte à decisão do Juízo da 3ª Vara Federal de Brasília de 7.8.2024 que autorizou a AELBRA, mantenedora da Ulbra, a realizar vestibulares à revelia do MEC. O resultado comemorado nas mensagens, portanto, não decorreu de decisão do Ministro Gilmar Mendes, que a ele se opôs.
*Com informações do Estadão











