Economia
Inadimplência no crédito bate recorde histórico e chega a R$ 247,6 bilhões


O volume de crédito em atraso no Brasil somou R$ 247,6 bilhões até abril deste ano, o maior patamar já registrado desde que o Banco Central iniciou a série histórica, em 2004, já considerando os valores corrigidos pela inflação. O levantamento foi feito pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), com base em dados da própria autoridade monetária.
Na comparação com o mesmo período de 2025, quando o estoque de dívidas em atraso há mais de 90 dias somava R$ 164,3 bilhões, o crescimento chega a 50% — um salto expressivo em apenas doze meses.
Inadimplência cresce acima da expansão do crédito
Para dimensionar a gravidade do quadro, a FecomercioSP aponta que o aumento registrado em um único ano equivale a praticamente todo o volume de crédito em atraso existente no país em 2018, quando o estoque somava R$ 84,7 bilhões — ou seja, o país acumulou em doze meses um volume de dívidas equivalente ao de um ano inteiro há quase uma década.
O estudo mostra que o recorde não decorre simplesmente de mais gente tomando crédito. Nos dez estados com maiores volumes de operações em atraso, o crédito concedido entre o primeiro quadrimestre de 2025 e o mesmo período de 2026 cresceu entre 3% e 13%, enquanto a proporção de dívidas não pagas avançou entre 43% e 87% no mesmo intervalo.
Em Tocantins, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Rio Grande do Sul, a relação entre crédito em atraso e volume total de crédito atingiu o maior nível da série histórica. Nos outros 23 estados, essa proporção permanece abaixo do pico, mas o valor em atraso ainda bateu recorde por conta do crescimento acumulado da base de crédito ao longo dos anos. Além disso, 26 estados registram a maior taxa de inadimplência já vista na série pós-pandemia.
O problema atinge todas as modalidades de crédito
O levantamento da FecomercioSP abrange todas as modalidades contratadas por pessoas físicas, incluindo financiamento imobiliário, crédito consignado, empréstimos pessoais e crédito rotativo do cartão.
Segundo a entidade, quando linhas de crédito tão diferentes entre si — em prazo, risco e perfil de tomador — pioram ao mesmo tempo, isso indica que o problema está disseminado por todo o sistema financeiro, e não concentrado em um único tipo de operação.
Renegociação alivia, mas não resolve a raiz do problema
Programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, ajudam a aliviar o peso das dívidas no curto prazo, mas, segundo a FecomercioSP, não atacam as causas estruturais do aumento da inadimplência. Para a entidade, o recorde de R$ 247,6 bilhões reflete desequilíbrios mais profundos, que exigiriam mudanças na condução da política econômica.
A federação defende uma agenda fiscal mais rígida, com busca por superávits primários, como forma de reduzir a percepção de risco no mercado e abrir espaço para uma queda mais sustentável dos juros no médio prazo.
Todos os estados bateram recorde de crédito em atraso
Segundo o levantamento, todas as unidades da Federação registraram o maior volume de crédito em atraso da própria série histórica. Por região, o crescimento mais acentuado ocorreu no Centro-Oeste (69,3%), seguido por Sul (66,1%), Norte (62,7%), Nordeste (47,4%) e Sudeste (37,9%).
Entre os estados, os maiores aumentos na comparação com o primeiro quadrimestre de 2025 foram em Tocantins (105%), Rio Grande do Sul (95,7%), Maranhão (93,5%), Mato Grosso (83,1%) e Goiás (81,3%). Já Distrito Federal (25,6%), Rio de Janeiro (26,6%) e Rio Grande do Norte (30,1%) tiveram alta abaixo da média nacional.
A FecomercioSP observa que, além dos fatores macroeconômicos, os estados com maior alta compartilham uma característica: dependem fortemente da renda agropecuária. Quando a rentabilidade do campo cai, essas famílias ficam mais vulneráveis ao aumento do custo de vida, sobrando menos dinheiro para honrar compromissos financeiros.
São Paulo concentra mais de um quinto da inadimplência nacional
Mesmo com um crescimento de 36,8% — abaixo da média do país —, São Paulo responde sozinho por 22,2% de todo o crédito em atraso no Brasil. Na sequência aparecem Minas Gerais (8,7%), Goiás (7,3%), Rio Grande do Sul (7,2%) e Rio de Janeiro (7,1%). Juntos, esses cinco estados concentram 52,6% de todo o estoque de dívidas não pagas do país.
Esse cenário já vinha se desenhando: a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), de maio, mostrou que 74,2% das famílias da capital paulista estavam endividadas — o maior percentual dos últimos quatro anos. O índice era de 72,9% em abril e de 71,2% em maio de 2025, confirmando uma trajetória de alta constante.
Juros altos, inflação e apostas esportivas pressionam o bolso das famílias
Na leitura da FecomercioSP, a principal razão por trás do aumento dos atrasos é o ambiente de juros elevados. Com a Selic em patamar alto, uma fatia maior da renda das famílias passa a ser consumida pelo pagamento de juros, sobrando menos espaço no orçamento para quitar outras contas.
A entidade também associa o quadro à aceleração da inflação em 2026, impulsionada em parte pelos reflexos da guerra no Irã sobre os preços dos combustíveis — o que encareceu alimentos, transporte e serviços de forma geral. Diante disso, muitas famílias passaram a priorizar despesas essenciais, como alimentação e moradia, adiando o pagamento de parcelas.
Outro fator citado pela federação é o crescimento acelerado das apostas esportivas (bets), tema já explorado em pesquisas anteriores da própria FecomercioSP. Segundo a entidade, esse gasto passou a competir por espaço no orçamento doméstico e pode ter reduzido os recursos disponíveis para o pagamento de dívidas.
O que é a Selic e por que ela pesa tanto no crédito
A taxa Selic é o principal instrumento de política monetária do Banco Central e serve de referência para praticamente todas as linhas de crédito do país — do cartão de crédito ao financiamento imobiliário. Quando ela sobe, o custo do dinheiro emprestado também sobe, encarecendo parcelas e dificultando a quitação de dívidas já contratadas.
Historicamente, ciclos de Selic elevada tendem a vir acompanhados de aumento da inadimplência, já que famílias endividadas em taxas variáveis ou que buscam novo crédito para cobrir dívidas antigas passam a pagar mais juros sobre o mesmo saldo devedor — um efeito que ajuda a explicar por que o crédito em atraso cresce mais rápido que o crédito concedido, como mostram os dados da FecomercioSP.







