Política
Por que o PT nunca ganhou as eleições para o governo de São Paulo o estado mais rico do Brasil


Desde sua fundação, em 1980, o PT disputou todas as eleições ao governo do estado de São Paulo — e nunca venceu nenhuma delas. A sequência de derrotas no estado mais populoso e economicamente poderoso do país não é obra do acaso. Especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam uma combinação de fatores históricos, políticos e sociais que explica essa resistência persistente do eleitorado paulista à sigla.
Entre os elementos centrais desse fenômeno estão a herança conservadora do estado, moldada ao longo de gerações por oligarquias do café, do sistema financeiro e da indústria, que desarticulou profundamente a esquerda brasileira antes mesmo de ela conseguir se consolidar.
Até o surgimento do PT, o jogo político em São Paulo era controlado pelos herdeiros dessa tradição conservadora. A redemocratização pós-ditadura [1964-1985] foi marcada pela hegemonia do então PMDB, que dominava o cenário nacional e estadual. Desse tronco nasceria o PSDB, que viria a comandar o Palácio dos Bandeirantes por quase três décadas consecutivas.
Hoje, a representatividade conservadora no estado está mais fragmentada. O espectro inclui o PL — abraçado pelo bolsonarismo a partir de 2022 —, o PSD de Gilberto Kassab, herdeiro do antigo PFL, e o Republicanos, legenda do atual governador Tarcísio de Freitas, presidida pelo deputado federal e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcos Pereira.
Viés liberal
A socióloga Isadora Brizola, especialista em economia, defende que entender São Paulo exige encará-lo como o principal polo do desenvolvimento industrial brasileiro, especialmente durante os governos de Getúlio Vargas [1930-1945 e 1951-1954].
O crescimento econômico criou uma tensão estrutural entre a burguesia industrial e uma classe trabalhadora muito numerosa. “São Paulo, especificamente, desenvolve a sua perspectiva conservadora por um viés econômico. O viés conservador é baseado na perspectiva liberal para São Paulo. A gente é o forte do mercado privado: as fintechs, os bancos, a indústria, o agro”, analisa a socióloga.
O cientista político e sociólogo Paulo Ramirez acrescenta ao debate o peso histórico da escravidão sobre a mentalidade da classe dominante paulista — um conservadorismo que coexistiu, paradoxalmente, com o avanço técnico e industrial.
“Do ponto de vista da manutenção da mão de obra escrava, formou-se uma mentalidade conservadora, retrógrada e, inclusive, menosprezo dos trabalhadores braçais, manuais. E, por outro lado, há um progresso, ao mesmo tempo, do ponto de vista técnico, industrial, do ponto de vista material.”
Efeito da ditadura
O golpe de 1964 interrompeu a transmissão das tradições de militância de esquerda entre gerações, desarticulando a organização dos campos políticos progressistas. Partidos contrários à repressão tiveram seus direitos políticos cassados.
“O que restou de fato foi uma reorganização dos movimentos de esquerda por meio das universidades, sobretudo as universidades públicas e consequentemente começou-se a estabelecer uma resistência estudantil”, explica Ramirez.
A exclusão histórica de grande parte da população — especialmente a negra — do processo eleitoral também contribuiu para uma defasagem de senso crítico na classe trabalhadora, segundo os especialistas. Essa exclusão foi tanto formal quanto estrutural, moldando um eleitorado menos organizado politicamente.
“Até 1985, o voto para pessoas analfabetas era proibido, era proibido no país de analfabetos funcionais que temos até hoje. Então, essa representação política no Brasil foi construída pela elite”, reforça Brizola.
Ramirez ainda destaca que a redemocratização coincidiu com a abertura econômica ao capital neoliberal, o que enfraqueceu ainda mais a esquerda no interior do estado.
“A esquerda começou a perder muita força, mesmo porque a redemocratização coincidiu com esse período de abertura econômica em nome do grande capital neoliberal.”
A expansão das atividades econômicas posicionou os donos do capital também como agentes de poder político, conquistando adesão tanto de empregados quanto de empregadores pelo interior paulista.
“São Paulo tem um predomínio nos centros urbanos desses profissionais liberais que ideologicamente se aproximam da visão dos seus opressores, no caso da burguesia que comanda o setor de serviços, assim como também no interior, a população, boa parte dela, acaba aderindo à visão dos latifundiários.”
Já nos anos finais do governo militar, o PT emergiu na Grande São Paulo com propostas inéditas, como destaca a cientista política Daniela Costanzo, pesquisadora plena do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
“Surge ali com os operários em fábricas, no ABC, uma classe cujos pais não tinham histórico, nem de sindicalismo, militância, de esquerda, nada disso, e o PT cresce justamente por isso, por pegar uma classe inteiramente nova, num lugar propício.”
Tucanato e malufismo
Enquanto o PT se consolidava entre os operários do ABC, a direita também se reorganizava com força. “A gente tinha várias eleições com o segundo turno só da direita, PMDB versus Maluf”, lembra Costanzo. “Uma parte importante de São Paulo é o berço do malufismo, que é um movimento também muito importante e conservador aqui da capital.”
O político conservador Paulo Maluf ocupou a prefeitura de São Paulo em duas oportunidades — uma como prefeito biônico [1969-1971] e outra como prefeito eleito [1993-1996] — além de ter sido governador [1979-1982].
Em paralelo, o PSDB, nascido das entranhas do PMDB, se espalhou pelo interior do estado, consolidando uma máquina pública robusta e uma base eleitoral profundamente capilarizada, influenciada por elites locais e pelo agronegócio — os grandes herdeiros das oligarquias tradicionais. O domínio tucano no Palácio dos Bandeirantes durou quase três décadas.
“Ao mesmo tempo, o PSDB conseguiu penetrar no eleitorado mais popular que apoiava o PMDB no interior do estado”, analisa Ramirez.
A virada petista no plano federal, a partir de 2002, não se traduziu em avanço estadual em São Paulo. Ao contrário: a cientista política Costanzo observa que, a partir de 2006, o PT mudou o perfil do seu eleitorado nacional — passando a atrair as classes populares de menor renda, mas ao mesmo tempo afastando a classe média paulista, historicamente mais instruída e urbana.
Os escândalos do Mensalão [junho de 2005] e da Operação Lava Jato [março de 2014] aprofundaram o antipetismo em São Paulo, causando danos duradouros ao desempenho eleitoral do partido no estado.
Capital progressista
Ainda que o PT jamais tenha alcançado o governo estadual, o partido administrou a cidade de São Paulo em três momentos distintos: Luiza Erundina (de 1989 a 1992), a primeira prefeita petista da capital; Marta Suplicy (entre 2001 e 2004), eleita no segundo turno contra Paulo Maluf; e Fernando Haddad (de 2013 a 2016), o último prefeito da sigla na capital paulista.
A tendência das metrópoles de serem mais progressistas do que o restante dos estados é um padrão reconhecido internacionalmente, inclusive na Europa e nos Estados Unidos. Os grandes centros urbanos tendem a concentrar maior diversidade de ideias e de posicionamentos políticos. “Isso também muda a correlação de forças entre os progressistas e os conservadores”, observa Costanzo.
Eleições 2026
Com Fernando Haddad como pré-candidato ao governo paulista em 2026, os especialistas avaliam que o caminho do PT no estado ainda é árduo. “Nas últimas eleições para municípios, o PT perdeu muita prefeitura. E o centrão cresceu muito. Se não tem uma base mais forte, estabelecida no estado, é difícil dele crescer e ficar mais condicionado”, avalia Costanzo.
Para Isadora Brizola, a lógica liberal ainda fragmenta a organização coletiva da esquerda em São Paulo — e o terreno ideológico segue sendo o maior obstáculo. “O debate estrutural não está acontecendo”, reconhece.


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