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Brasil bate recorde de feminicídios pelo quarto ano seguido


O país voltou a registrar o maior número de feminicídios da série histórica. Em 2025, foram 1.571 mulheres mortas por razão de gênero, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quarta-feira.
O resultado representa alta de 4% frente a 2024 e uma taxa de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres — o quarto recorde consecutivo do indicador, mantendo uma trajetória de crescimento que já dura uma década.
O dado chama atenção porque caminha na direção oposta da violência letal em geral. O Brasil registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais em 2025, queda de 8,2% ante o ano anterior e a menor taxa da série histórica (19,1 mortes por 100 mil habitantes).
O país antecipou em dois anos a meta de redução de homicídios prevista na Política Nacional de Segurança Pública para 2027. Apesar disso, feminicídios e mortes por intervenção policial foram as únicas categorias que cresceram no período.
Como for aplicada, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) prevê medidas protetivas de urgência para mulheres em situação de risco, e o descumprimento delas pode ser denunciado pelo canal oficial Ligue 180, mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Vítimas também podem buscar apoio nas Casas da Mulher Brasileira, unidades que reúnem em um só espaço atendimento psicológico, jurídico e policial.


Uma tendência que atravessa diferentes governos
Os números não são fruto de um único ano ou de uma única gestão. A série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra crescimento praticamente contínuo desde 2015, quando o feminicídio passou a ser tipificado no Código Penal: 449 casos naquele ano, chegando a 1.354 em 2020 e 1.455 em 2022 — já um salto de 7,6% em relação a 2021.
A alta seguiu nos anos seguintes: 1.475 em 2023, 1.492 em 2024 e o pico de 1.571 em 2025.
Mas por que a curva não recua, mesmo com investimentos anunciados em políticas de proteção? Parte da resposta está na execução do orçamento destinado a essas políticas.
Um levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), apresentado à Comissão de Direitos Humanos do Senado, apontou que a execução orçamentária de três programas do Ministério das Mulheres voltados ao enfrentamento da violência de gênero — incluindo o programa “Mulher, Viver sem Violência” — ficou em apenas 14,28% no período avaliado.
A relatora do caso no Senado, senadora Mara Gabrilli, classificou o índice como “preocupante”.
O próprio ministério reconhece o problema: em audiência na Câmara, a pasta apontou que o desafio atual é menos a capacidade de gastar e mais a insuficiência de recursos disponíveis para ampliar o atendimento em todo o país.
Para acompanhar a execução orçamentária de programas federais, o cidadão pode consultar diretamente o Portal da Transparência, do Governo Federal.
O que dizem as especialistas
Para a coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, os dados revelam que a violência letal contra mulheres segue lógica própria, distante da curva geral de criminalidade.
Segundo ela, fatores estruturais — desigualdade de gênero, padrões de masculinidade, controle coercitivo e falhas na rede de proteção — dificultam interromper trajetórias de violência já conhecidas pelo poder público.
Brandão também descarta a hipótese de que o aumento seja apenas reflexo de melhores registros após a Lei nº 14.994/2024, que transformou o feminicídio em crime autônomo.
Ela observa que, se fosse só isso, os números tenderiam a se estabilizar depois de algum tempo — mas o crescimento é, segundo ela, “contínuo, acompanhado também pelo aumento de outros crimes relacionados à violência de gênero”. Entre os indicadores citados por ela estão o salto de 30% nos casos de perseguição (stalking) e de quase 17% na violência psicológica registrada em 2025.
Tentativas de feminicídio também sobem
Outro dado relevante: 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio em 2025, aumento de 5,9% frente ao ano anterior. Para cada caso consumado, o Anuário registrou 2,7 tentativas — um indício de que a diferença entre viver e morrer, em muitos casos, dependeu de fatores alheios à vontade do agressor.
Pesquisadores do Fórum avaliam que esse padrão expõe os limites de uma política pública baseada apenas na repressão. Recomenda-se investir em prevenção, intervenção precoce e monitoramento de risco, para impedir que episódios de violência evoluam para o desfecho fatal.
Ranking dos estados
As maiores taxas de feminicídio em 2025 foram registradas no Amapá, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, concentrando os piores índices nas regiões Norte e Centro-Oeste — também líderes quando somados casos consumados e tentados, o que reforça as desigualdades regionais no enfrentamento do problema.
Perfil das vítimas e dos agressores
O retrato das vítimas confirma um recorte racial e etário: 65,1% eram mulheres negras, 56,5% tinham entre 25 e 44 anos e 62,5% foram mortas dentro da própria residência.


Entre os agressores identificados, 96,4% eram homens, e o vínculo com a vítima era próximo na maioria dos casos: 60,9% eram parceiros íntimos, 18,9% ex-parceiros e 12,1% familiares.
Os números mostram ainda que o feminicídio raramente é um evento isolado. Para cada caso registrado em 2025, houve em média 502 registros de ameaça, 182 de lesão corporal em contexto doméstico, 84 de descumprimento de medida protetiva, 79 de perseguição e 39 de violência psicológica contra mulheres — um padrão de escalada que precedeu a maioria das mortes.
Entre os estados que informaram dados ao Fórum, 70 mulheres foram assassinadas mesmo com medida protetiva ativa, o equivalente a uma em cada nove vítimas.


No mesmo período, o país somou 132.025 casos de descumprimento de medidas protetivas, alta de 16,7% em relação a 2024 — o que reforça a fragilidade na fiscalização de decisões judiciais que deveriam proteger essas mulheres.
Quem estiver em situação de risco, ou conhecer alguém nessa situação, pode buscar orientação pelo Ligue 180 ou pelo aplicativo oficial Direitos Humanos Brasil, ambos gratuitos e disponíveis 24 horas.











